31.3.11

Crítica: Os Agentes do Destino


Título original: The Adjustment Bureau

Realização:
George Nolfi
Argumento: George Nolfi
Ano: 2010 (Estados Unidos)

Site oficial
IMDb



Será que controlamos o nosso destino, ou existem forças que nos manipulam e orientam?

Matt Damon é um homem que consegue vislumbrar o que o Destino lhe reserva para o futuro, e descobre que o que foi cuidadosamente preparado para ele não é o que deseja. Mas para conseguir ter aquilo que tanto quer, David Norris dá início a uma viagem sem retorno, numa busca pela única mulher que alguma vez amou...

Na véspera da eleição para o Senado dos Estados Unidos David Norris (Matt Damon) conhece a bailarina contemporânea Elise Sellas (Emily Blunt). Mas à medida que os dois se aproximam, homens misteriosos conspiram nas sombras para os separar. Agora e contra todas as expectativas, David e Elise tentam por todos os meios continuar juntos...

O argumento é baseado num conto de Philip K. Dick, Adjustment Team. Foi publicado pela primeira vez na revista Orbit Science Fiction, nos finais de 1954.

Vários foram os trabalhos de Philip K. Dick adaptados para o pequeno e o grande ecrã e alguns deles tornaram-se verdadeiros clássicos de referência no cinema: Blade Runner (1982), Total Recall (1990) e A Scanner Darkly (2002), só para enumerar alguns. Ainda hoje K. Dick desperta fascínio e interesse quer da parte do público, quer das produtoras, que procuram sempre dar novas interpretações aos trabalhos do autor falecido em 1982.

Apesar de o realizador ter optado por explorar mais o lado romântico do que é hábito nas adaptações das obras de Philip K. Dick, Os Agentes do Destino faz o público reflectir nos sacrifícios e concessões que o indivíduo tem de fazer para cumprir os seus pseudo-desígnios.

Nesta adaptação destaca-se um pensamento: muitas vezes aquilo que mais desejámos, nem sempre é aquilo que realmente precisámos para ser felizes e nos sentirmos completos... A recta final do filme recorre à ideia do ser humano como vivente inconsciente, à mercê de forças que moldam o seu destino e que o seu livre arbítrio não passa de uma ilusão habilmente tecida na sua mente. E David é levado a acordar para uma realidade contra a qual se vê obrigado a rebelar.

Apesar do esforço notável e do talento de Matt Damon, a sua escolha para o papel de David Norris, foi claramente um ponto menos positivo para a produção, notando-se claramente o desconforto do actor com o papel escolhido para ele. Decididamente Matt Damon não tem perfil para obras de cariz mais romântico, sendo antes mais vocacionado para filmes de acção ou dramáticos – nota-se uma diferença abismal entre este desempenho e o trabalho executado por Damon em True Grit, dos irmãos Coen.

O resto do elenco, apesar de um ou outro momento menos bem conseguido, apresentou um trabalho bastante coeso e convincente. Destaque para o trabalho de Emily Blunt (Young Victoria) e Anthony Mackie (8 Mile, Notorious) que consegue convencer num papel com profundidade, demonstrando que é um actor bastante flexível.

De salientar ainda a participação de Jon Stewart no seu melhor. Uma vez mais brilhou e demonstrou o porquê de ser o “quase-jornalista” mais famoso do Mundo, que mesmo sendo comediante consegue ter mais credibilidade do que muitos nomes do jornalismo mundial.

A banda sonora do filme ficou a cargo do veterano Thomas Newman e uma vez mais sobressaiu pela positiva. Conseguindo proporcionar um leque de emoções muito mas intensas e ajudando na interpretação da complexa rede de acontecimentos e pontos de inflexão com que o espectador é confrontado.

Apesar da campanha de marketing em torno desta produção envolver referências a Inception e Bourne, Os Agentes do Destino nada tem a ver com os dois. Durante grande parte do filme, enquanto se assiste ao desenrolar da história, muitas vezes tem-se a sensação de estar a ver um remake de City of Angels/A Cidade dos Anjos (1998) – que por sua vez, foi um remake de um filme de Wim Wenders, Der Himmel über Berlin/As asas do desejo (1987). Os Agentes do Destino tenta ser uma espécie de actualização do mito urbano de criaturas que se movimentam nas sombras das sociedades humanas, ajudando a raça humana a sobreviver, e a crescer lentamente em direcção a um futuro melhor.

Concluindo, Os Agentes do Destino cumpre na perfeição a sua finalidade de entretenimento do público, com uma mistura interessante de elementos de ficção científica e romance... mas deixando um tanto ao quanto o espectador desiludido, sabendo a pouco.

Tendo em linha de conta, o material ao qual o realizador foi buscar a inspiração, Nolfi não conseguiu fazer aquela passagem difícil de filme de natureza estritamente romântica para um filme que leva o público a reflectir nas suas existências e escolhas... mantendo uma cortina entre os espectadores e a acção no grande ecrã, o que dificulta a empatia e uma ligação emocional mais intensa... – Joana Neto Lima


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