10.2.10

Crítica: O Despertar das Trevas




Título original: Touch the Dark

Autora: Karen Chance
Tradução: Ana Beatriz Manso
Editora: Gailivro (2010)




A série Twilight de Stephenie Meyer deu o mote para a recente explosão de vampiros, seja na literatura, cinema ou séries de televisão. Mesmo com uma certa saturação no género, a Gailivro volta a apostar nos vampiros. E embora não tenha o potencial comercial de Twilight, o romance de Karen Chance é certamente um título forte e surpreendente.

O Despertar das Trevas é o primeiro título da série Cassandra Palmer, centrada nesta personagem – o quarto volume foi lançado o ano passado nos Estados Unidos. “Cassie” é uma vidente fugitiva de um vampiro mafioso, Tony. Este mantinha-a aprisionada desde pequena para usar os seus poderes nos seus negócios obscuros. Três anos depois ela é sadicamente perseguida pelo seu inimigo e recorre à protecção improvável do Senado de vampiros. Mas as contrapartidas serão pesadas para ela e nem a ajuda dos fantasmas, com quem consegue comunicar, poderão ajudá-la…

Apesar dos meus receios por se tratar de mais uma história de vampiros, cedo se dissiparam com leitura das primeiras páginas. Com elementos de fantasia, O Despertar das Trevas consegue ser sedutor e viciante. A linguagem directa e sarcástica de Karen Chance faz-nos soltar uma gargalhada maléfica mesmo nas situações mais tensas, mas nem isso quebra o seu ritmo frenético.

O ponto mais forte está mesmo nas personagens. Com uma personalidade forte, Cassie consegue a proeza de se apresentar como um misto de donzela em apuros e guerreira astuta. Os vampiros são introduzidos como seres sedentos de sangue, egocêntricos e sensuais, fazendo até recordar as personagens de Anne Rice. E todas as restantes personagens têm algo de original e peculiar que nos faz ficar agarrados aos seus mistérios e personalidades.

Um aspecto menos positivo está nas descrições. Por vezes torna-se bastante confuso imaginar as cenas por haver uma certa falta de coerência entre as personagens, as suas acções e os cenários.

O Despertar das Trevas afirma-se como mais uma excelente aposta da Gailivro. Aproxima-se mais da série Sangue Fresco de Charlaine Harris (SdE), do que Twilight de Meyer (Gailivro). Mas não se centra apenas nos vampiros e sim em toda uma história repleta de seres sobrenaturais diferentes entre si. Acredito que vá agradar aos leitores das duas séries referidas.

Sedutoramente negro e sarcástico o suficiente para nos agarrar pela garganta, O Despertar das Trevas obriga-me a seguir Karen Chance de muito perto. – Fábio Ventura

Crítica: O Tempo do Anjo




Título original: Angel Time

Autor: Anne Rice
Tradução: Paula Antunes
Editora: Publicações Europa-América (2009)




Conhecida mundialmente pelas suas Crónicas Vampíricas, onde se destacam Entrevista com o Vampiro e A Rainha dos Malditos, adaptados ao cinema, Anne Rice sempre proporcionou aos seus leitores histórias negras de vampiros e bruxas. Recentemente, decidiu explorar novos temas com as séries A Vida de Cristo e Os Cânticos do Serafim.

O Tempo do Anjo é o primeiro livro da série Os Cânticos do Serafim, e revela a história de Toby O’Dare, assassino implacável, conhecido como “Sortudo”. “Numa teia de pesadelo e de missões letais, é um homem sem alma e sem nome, às ordens de um misterioso mandante.

Quando um dia se cruza com um estranho ser, um serafim, Toby O’Dare terá de escolher entre salvar ou destruir vidas. E ele, que sonhara em tempos ser padre, viaja no tempo até ao século XIII, em Inglaterra, época de inquietação e trevas onde judeus são acusados de assassinatos rituais e crianças desaparecem em circunstâncias misteriosas.”

O Tempo do Anjo surpreendeu de uma forma muito positiva, especialmente pela construção de personagens fortes e pela forma como a fé é retratada. As ricas descrições da autora deixam compreender bem as angústias despertadas pela dúvida e pela solidão, assim como deixam conhecer as alegrias provocadas pela crença num Deus que conhece cada pessoa ao pormenor e mesmo assim as ama.

É muito interessante a ideia de existirem dois tempos diferentes: o comum, vivido pelos humanos de uma forma cronológica, e o dos anjos, que permite estar presente em qualquer época da história, passada ou futura, e, desta forma, ter conhecimento absoluto.

Menos interessante foi o facto de Toby O’Dare parecer mudar de forma demasiado automática. A personagem deveria passar por um momento maior de reflexão e arrependimento pelos seus actos passados.

Acima de tudo é uma história envolvente. O argumento é cativante, repleto de emoção e mistério. O leitor é levado a pensar sobre a própria existência humana e, em como o acumular de experiências individuais transforma cada pessoa num ser único. – Cláudia Sérgio

8.2.10

Lançamentos: Viagens na Minha Terra com Vampiros

Era inevitável. Mais tarde ou mais cedo a moda da adulteração dos clássicos chegaria também aos escritores lusos. Contudo, chega com outra, a dos vampiros. Foi o que Pedro Manuel Calvete. Escolheu o romance de Almeida Garrett, Viagens na minha terra, e adicionou-lhe vampiros.

O livro vai ser lançado pela Babel através da chancela Arcádia. A data ainda não foi divulgada.

O preço é de 15.50 euros.

"Provavelmente não há mais romântico na literatura portuguesa que a menina dos rouxinóis a morrer de amores nas Viagens na minha terra.

Provavelmente não há novela mais gótica do que o Drácula de Bram Stoker.

Provavelmente não há nada mais romântico na literatura europeia do que as novelas góticas.

Faltava qualquer coisa gótica na literatura romântica portuguesa.

Depois de Viagens na Minha Terra com Vampiros já não falta."

Rui Baptista

Crítica: Brinca comigo! e outras estórias fantásticas com brinquedos





Autores: Vários
Editora: Escrit’orio Editora (2009)






A literatura portuguesa volta a dar provas do seu enorme valor. Pequena antologia, se assim podemos chamar, que reúne quatro “estórias fantásticas, forjadas na imaginação de quatro dos mais conceituados e inventivos escritores do género em Portugal.” E são eles João Barreiros, David Soares, João Ventura e Luís Filipe Silva.

À excepção de João Barreiros, cujo conto já tinha sido publicado na Internet, os autores aceitaram o desafio da Escrit’orio para escrever “estórias fantásticas com brinquedos (com um pendor minimamente negro, mas não de terror).” No entanto, David Soares decidiu não respeitar esta directiva. Escreveu um conto que pende bastante para o terror. Em Um Erro do Sol, os brinquedos são relegados para uma posição plano secundário de forma a dar lugar antes a vampiros.

Diz o escritor no seu blog, Cadernos de Daath, que Brinca Comigo! teve o condão de fazer com que os seus autores regressassem aos tempos de infância para se lembrarem dos primeiros sustos que apanharam.”

Depois de lermos o conto do David, apenas podemos imaginar que tenha sido um valente susto…

João Ventura dá-nos a conhecer A Boneca. Feita de panos e uma mistura de palha e erva, carrega consigo um único desejo, vingança.

Já Luís Filipe Silva no seu conto, Não é o que Ignoras o Motivo da Tua Queda mas o que Pensas Saber, o mundo vê-se diante de uma possível ameaça alienígena.

Por fim o conto de João Barreiros, Brinca comigo!, que na verdade é o primeiro da antologia. O autor imagina um cenário pós-apocalíptico em que uma horda brinquedos electrónicos ruma em direcção ao Norte – que passou a ser Sul devido à “Inversão Magnética do Pólos”. Rumam também com um único objectivo, encontrar o Alvo…

Brinca Comigo! é uma antologia que só peca pelo tamanho. A literatura portuguesa fantástica, que aqui está tão bem representada, deixa de fora muitos outros bons autores. Quem sabe se não serão contemplados numa segunda antologia.

Como nos contou o editor, Miguel Neto, “quisemos explorar a carga emocional, fantástica e imagética que o objecto brinquedo transporta com ele, subvertendo um pouco as abordagens cândidas e bastante limitadas, que normalmente se fazem à temática.”

Um objectivo amplamente conseguido por todos os envolvidos. Brinca comigo! é assim um livro obrigatório. – Rui Baptista